• Vivian Vi

Água, Saneamento e Dignidade Humana


A água de boa qualidade é como a saúde ou a liberdade: só tem valor quando acaba.” A frase do escritor Guimarães Rosa, além de sábia, nunca foi tão atual. Em pleno século 21 nunca debatemos tanto as necessidades inerentes à manutenção da vida de todos os seres vivos no planeta, em especial temas ambientais como as mudanças do clima e água. O planejamento hídrico baseado em décadas de história e dados acumulados já não nos permitem prever onde teremos ou não chuvas gerando esta incerteza climática e com os eventos extremos.

Escrever sobre a incerteza quanto à quantidade e qualidade das águas no planeta Terra, formado por ¾ de água, até parece estranho. Já na escola aprendemos que não haveria risco de ficarmos sem o recurso, ainda mais no Brasil que detém cerca de 12% de toda a água doce do mundo. Sentimo-nos privilegiados por morar numa “caixa d´água”, enquanto países importantes, como Espanha, Israel, Índia, Paquistão, México, Chile, partes da Itália, Turquia e a Califórnia, entre outros, sofrem pela ausência.

Mas se moramos num país com água em abundância, por que ter receio da falta? A questão está em fatores geográficos e em como cuidamos deste bem. Temos grande irregularidade entre a distribuição geográfica da água e a concentração da população, ou seja, a maior disponibilidade de água doce está na Região Norte com 70% deste recurso e onde temos apenas 4,1 habitantes por km2 (IBGE, 2010). No Sudeste são 6% da água disponível e 87 hab/km2, o Nordeste, assolado pela escassez histórica, com 3% da água e 34 hab/km2, ou seja, na região mais crítica deveria se concentrar as melhores políticas, o que não acontece.

Os problemas com a água crescem quando cruzamos disponibilidade hídrica com os indicadores de saneamento básico. Esta relação é direta para a qualidade da água que temos para atender a todos os usos, em especial o abastecimento das pessoas e dessedentação dos animais – usos prioritários no caso de crises hídricas. O lançamento da água poluída por esgotos no solo e nos rios compromete a quantidade e qualidade dos recursos hídricos, 24 horas por dia e 365 dias por ano. Mais de 5600 piscinas olímpicas de esgotos na natureza por dia dificultando sobremaneira o tratamento para posterior uso, além de eliminar a vida aquática em muitos rios importantes.

Mesmo entre as nações com maior PIB, o Brasil possui o saneamento que países desenvolvidos tinham antes do século 19. Mais de 35 milhões de brasileiros sem água potável para lavar as mãos em meio a uma das maiores pandemias da história e que vivem nas áreas mais vulneráveis, nas favelas, áreas isoladas, irregulares ou rurais, no semiárido e Amazônia, onde a COVID-19 tem sido mais brutal. Temos mais de 100 milhões sem acesso à coleta e tratamento de esgotos; na Região Norte, berço das águas, apenas 1 em cada 10 pessoas possui coleta de esgotos; 3 a cada 10 no Nordeste e mesmo Santa Catarina e Rio Grande do Sul possuem desafios enormes.

Um grande impacto ambiental, mas não é só isso; a poluição ininterrupta afeta a saúde pública. Em 2018, mais de 230 mil internações por diarreias graves, a maior parte pela água poluída por esgotos. Associado às diarreias temos as verminoses, parasitoses, dermatites, esquistossomose, leptospirose, dengue e outras doenças mais endêmicas nas áreas sem saneamento básico. Elas comprometem a saúde, em especial das crianças, mas também se desdobram em outros impactos, como o afastamento escolar que faz com que estas crianças não tenham desempenho escolar compatível com outras nascidas em condições sanitárias perfeitas.

No Norte, com menos saneamento, a população que habita locais com a infraestrutura tem, em média, 9,64 anos de educação formal contra 5,63 anos de quem não tem. O Nordeste tem 9,13 anos de escolaridade média contra 5,52 anos dos sem acesso. No Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), por onde muitos jovens têm suas chances de entrar na universidade pública, o Painel Saneamento Brasil apontou que os candidatos que habitam residências com banheiro tiveram nota média de 521,10 pontos, enquanto os que não tinham foi de 472,23.

O estudo “O Saneamento e a Vida da Mulher Brasileira” mostrou que o acesso a água e esgoto tiraria 635 mil mulheres da pobreza, a maior parte delas negras e jovens. No país, 27 milhões de mulheres – uma em cada quatro – não têm acesso ao saneamento, que é determinante em sua saúde, educação, renda e bem-estar. Na idade escolar, as meninas sem banheiro têm desempenho estudantil pior, com 46 pontos a menos em média no ENEM quando comparadas à média dos estudantes.

Temos, ainda uma grande ineficiência no sistema de distribuição da água potável nas cidades. Perdemos, em média (ano 2018), 38% da água potável em vazamentos, roubos, fraudes, erros de medição. Um número absurdo, mais de 7 mil piscinas olímpicas de água potável perdidas por dia e mais de R$ 12 bilhões que não retornaram ao setor devido à ineficiência.

Enfim, o Brasil precisa evoluir rapidamente na proteção das águas, em especial melhorando o saneamento básico. Para tanto, acabamos de aprovar um novo Marco Legal que possui o potencial de investi

mentos da ordem de R$ 500 a R$ 700 bilhões em 20 anos. Espera-se que seja uma luz na retomada da economia, pós pandemia, trazendo empregos e renda, mas também ajudando a melhorar áreas sociais tão debilitadas pelo descaso governamental, em todas as suas esferas, como a questão sanitária do país. Garantir água limpa em toda a sua plenitude, o que inclui proteger a água que está na natureza, não é apenas relevante por gerar desenvolvimento, mas principalmente por ser fundamental à vida e à dignidade humana.

0 visualização

BRASIL
Av. Angélica, 688, conj 1001 Higienópolis
São Paulo-SP

brasil@vidiworld.com

Tel: (11) 3663-4242

(11) 3663.2242

  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon

© 2018 VIDI - Economia Sustentável. 

This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now