Marca de PE faz roupas baseada na técnica de upcycling e parcerias com artesãos

Há mais de 30 anos, o propósito da Refazenda é ser um negócio socioambiental, focado na mudança de comportamento no consumo de peças do vestuário



A estilista e fundadora da Refazenda com seus dois filhos e netos na mesa de corte da marca



A discordância com o modelo de negócio tradicional do mundo da moda impulsionou a criação da Refazenda, uma marca de roupas sustentáveis de Recife, que pratica upcycling -  “a técnica de upcycling consiste em, com criatividade, dar um novo e melhor propósito para um material que seria descartado, sem degradar a qualidade e composição da matéria. Um item que passou pelo upcycle normalmente possui uma qualidade igual ou melhor que a de seu original”, de acordo com o site www.ecycle.com.br


Este empreendimento está no mercado, há 30 anos, e foi criado pela estilista Magna Coeli com o objetivo de consolidar um novo estilo e comportamento de consumo, que refletem a preocupação ambiental e social. A Refazenda nasceu vanguardista em sustentabilidade, num momento em que upcycling ainda não era tão conhecido no Brasil. Design, desejo, beleza e qualidade também fazem parte do DNA da marca.


Segundo estimativas do setor têxtil e de confecção, em geral descarta-se entre 20% a 30% dos tecidos no momento do corte.  Este dado reforça a necessidade desta cadeia produtiva aderir ao conceito de economia circular e à técnica de upcycling.


Para Magna, além da qualidade e design inovador, os processos produtivos devem utilizar 100% da matéria-prima, sem gerar sobras e descartes de tecidos como acontece no setor. Para que isso ocorra, tudo é planejado de forma a utilizar os retalhos nas próximas coleções, explica.


Suas peças são elaboradas em parceria com artesãos e pequenos produtores locais. Atualmente 10 cooperativas nordestinas de trabalhos manuais (bordados e rendas) atuam junto com à empresa.  Os vestidos são o carro-chefe. Recentemente foram implantadas as linhas de roupas para os públicos infantil e masculino.


Os produtos são feitos em algodão, viscose, seda e outros tecidos de fibras vegetais. O processo de precificação é realizado de forma transparente com a participação dos parceiros. O objetivo é remunerar artesãos e cooperativas de modo justo. 


Poesia e música


O nome da marca foi inspirado na poesia e música ‘Refazenda’ de Gilberto Gil. O artista soube da iniciativa de Magna e apoiou o nome escolhido para a marca pernambucana de roupas sustentáveis.


A palavra Refazenda reflete os propósitos de sua fundadora: criar e produzir roupas e acessórios com o menor impacto ambiental possível, reaproveitando matérias-primas que têm vida útil e qualidade para novos ciclos produtivos; e promover oportunidades para pessoas criativas e talentosas na cadeia da confecção.


Brincando.


Magna é filha de um alfaiate e de uma professora de corte e costura. Na infância brincava no ateliê do pai, que ficava em Campina Grande (PB).

  Conviveu com as artes e técnicas da boa costura, acompanhando as aulas de sua mãe ministradas em casa.


A estilista conta que foi iniciada no universo da moda de forma lúdica. Com as sobras de tecidos ela criava e costurava roupas para suas bonecas. O retalho era fonte para brincar e sonhar.


Adulta e formada em serviço social, depois de trabalhar em projetos desenvolvidos em comunidades, Magna idealizou e resolveu empreender no mundo da moda, porém de acordo com seus ideais. O negócio foi criado, na década de 90 do século passado.


Refazenda é hoje referência para o mercado nacional e internacional.  A empresa é administrada por ela e seus dois filhos: André e Marcos Queiroz.


Para Marcos, diretor de soluções, a marca nasceu com o objetivo de fazer uma moda diferente dos padrões impostos pelas lojas fast fashion de alto consumo, comprometida com a sustentabilidade, beleza e qualidade.


Emprego e renda x crise

"Ela queria gerar emprego digno para que as pessoas pudessem viver do próprio trabalho e não de projetos beneficentes. Não somos um negócio meramente de moda. Somos um negócio que comunica comportamento sustentável e responsabilidade social através dos nossos produtos", define Marcos.

 

Atualmente a marca possui três lojas físicas em Recife e a loja online no site www.vivarefazenda.com.br  A maior parte das vendas é feita diretamente via e-commerce. O próximo passo da Refazenda será ingressar no setor de serviços, revela.


Mas nem tudo foram flores. Em 2015, a marca foi impactada pela crise econômica e precisou reduzir o número de funcionários e fornecedores para sobreviver. "Tínhamos 115 funcionários diretos e mais de 250 indiretos. Esses números caíram pela metade”, informa Marcos. Durante dez anos, de 2006 a 2016, a marca teve loja na Vila Madalena na capital paulista, que foi fechada.


“Conseguimos reverter a situação e, agora, a Refazenda está mais viva do que nunca", comemora o diretor. No momento, a equipe é composta por 46 colaboradores e conta com dezenas de parceiros. As roupas sustentáveis são revendidas por lojas de MG, PR, RN, AL e BA, que compreendem a proposta da empresa. Os produtos também são exportados, especialmente no período do verão europeu, para Portugal, Itália, Espanha e França.


Reconhecimento


Em 2017, ainda superando a crise econômica, a marca foi contatada pela ONU em função da atuação diferenciada. A instituição estava realizando um estudo mundial sobre economia circular e extensão da vida útil dos produtos, que apontou, em 2018, que no Brasil são descartadas 175 mil toneladas de sobras têxteis/ano e apenas 15% são reaproveitadas.


A Refazenda foi convidada pela ONU para contar sua história em eventos realizados em Paris, Bélgica, Genebra e Londres.  Em 23 e 24 de outubro passado, a empresa também participou do World Resources Forum em Genebra (Suiça) para falar de sua trajetória – este evento contou com a participação de cerca de 50 países, 300 participantes, entre organizações internacionais, incluindo ONU, Comissão Europeia, EIT Raw Materials, Conselho Mundial de Negócios para o Desenvolvimento Sustentável, Clube de Roma, Câmaras de Comércio dos Estados Unidos, etc


A marca se tornou tese de mestrado em três universidades europeias. A divulgação internacional rendeu visibilidade, clientes estrangeiros e bons negócios.


A empresa também conquistou alguns troféus, entre eles: o Prêmio de Sustentabilidade da Federação das Indústrias do Estado de Pernambuco 2011 e Vestuário Sustentável do Shopping de Recife 2014.


A Refazenda é certificada pelo Instituto Capitalismo Consciente, uma filial do Conscious Capitalism Inc. criado nos Estados Unidos, em 2010; e também possui o certificado Empresa B - diferencia os empreendimentos que querem ser transparentes e medem seus impactos sociais e ambientais. ((www.vivarefazenda.com.br  )

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