• Vivian Vi

Se não for verde! Cidades inteligentes e a COVID-19


Inteligência muito Artificial?


Neste universo digital pós- -verdade, muitas palavras são desvalorizadas rapidamente por causa de utilização excessiva. “Disrupção”, “reinicializar” e “narrativa” são exemplos, bem como “digital” e “pós-verdade”! “Inteligente” seria outra candidata. Na verdade, além de descrever frotas de carros, eletrodomésticos, redes elétricas com sensores LiDAR, software de reconhecimento e aplicativos, o epíteto está frequentemente limitado a descrever dispositivos inovadores ou prefeituras que possuem uma pequena sala com uma parede de monitores de tela plana.


Reinicializando a Narrativa Inteligente


Não, alguns monitores e sensores não transformam um município em uma cidade inteligente. Não, uma cidade repleta de tecnologia não se qualifica como inteligente se todo aquele software e hardware não contribuir para um tecido urbano interconectado. No entanto, as revoluções do Big Data, da IA, do 5G e da Internet das coisas/IoT geram novas ferramentas permitindo que nossas cidades sejam menos congestionadas, menos poluídas, menos perigosas – e façam uma alocação mais eficiente dos recursos humanos, financeiros, energéticos, etc.


Se não for sustentável, não é inteligente...


Como 75% da população mundial pode consistir de moradores urbanos até 2050, a alavancagem da TI para tornar as cidades mais eficientes em termos de energia e trânsito e os seus serviços públicos mais efetivos, não deve, por si só, ser suficiente. A adaptação das áreas metropolitanas às formas atuais de êxodo rural e à mudança climática é importante, mas só é inteligente se melhorar significativamente o meio ambiente e a qualidade de vida do cidadão.


50 tons de Inteligência


Inteligência digital, portanto, não é tudo. O conceito de cidades inteligentes abrange desde o seu início uma dimensão de bem-estar e até coesão social, mas o modelo deve visar também o desenvolvimento humano, a diminuição da pobreza e da marginalização... Portanto, o tema foi integrado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, entre outros, mas não exclusivamente, no ODS 11 “Cidades e Comunidades Sustentáveis”.

Ademais, a Nova Agenda Urbana adotada na Conferência Habitat III, em Quito, em 2016, contém diretrizes para tornar as cidades em todo mundo não apenas mais prósperas, ecológicas e seguras, mas também mais inclusivas.

A nível da União Europeia, iniciativas abundaram também, sendo incluídas no Plano Estratégico para as Tecnologias Energéticas, na Parceria para a Inovação “Cidades e Comunidades Inteligentes” e na Agenda Urbana do Pacto de Amsterdã em 2016. Além disso, estes programas serão traduzidos em ações no âmbito do novo programa Horizonte Europa, com orçamento de 100 bilhões de euros, e a questão urbana terá destaque no Pacote de Recuperação Econômica e no novo Pacto Ecológico Europeu. Parte interessada na Agenda de Quito, a OCDE também lançou programas sobre Cidades Inteligentes e crescimento sustentável.

Com o país como uma das nações mais urbanizadas do planeta (98%), a Bélgica tem sido pioneira na sustentabilidade, não apenas através da ONU, OCDE e UE, mas também por meio de iniciativas locais. A cidade de Gante ganhou o Prêmio Capital Verde da Europa de 2020, enquanto o título Europeu de Folha Verde foi para Mechelen (a Lovaina foi a laureada anterior) e todas as três Regiões do país adotaram roteiros para a implementação de políticas de cidades inteligentes.

O modelo de inovação em hélice tripla e os grupos (clusters) em Flandres, Valônia e Bruxelas já geraram grandes descobertas. Líder global em nanotecnologia, o instituto IMEC lançou a sua “Cidade das Coisas”, ajudando a projetar cidades mais inteligentes ao trazer a intuitiva Internet das coisas. O instituto VITO tem focado na modelagem do clima urbano (UrbClim) e no fenômeno das “Ilhas de Calor Urbanas”. Dentre outros avanços, temos: Schréder (iluminação inteligente), Solvay (novos materiais) e UMICORE (despoluição urbana e economia circular/“Mineração Urbana”). A Bélgica como um todo é líder da Europa em reciclagem.



A Locomotiva Inteligente de Curitiba

Como algumas empresas belgas descobriram há dois anos, quando uma missão liderada pela então secretária de Estado, C. Jodoigne, visitou o Rio e o Paraná, a experiência de Curitiba, líder em cidades sustentáveis na América Latina, refuta dois preconceitos principais. O primeiro é que a destruição ambiental em grande escala é necessária para gerar crescimento. Curitiba, mais uma vez recentemente com a iniciativa Vale do Pinhão, mostra, pelo contrário, que tornar- -se mais verde pode ser um forte impulsionador de competitividade e empregos. O outro é que o hemisfério norte teria lições a dar aos países do sul, como o Brasil, em termos de cidades inteligentes e sustentáveis. Inteligente, verde, justa... o mandato para uma cidade moderna já estava iminente antes da crise da COVID. Agora, espera-se que as metrópoles sejam igualmente resilientes em tempos de pandemia. Isso envolve ser capaz de implementar estruturas inteligentes, ferramentas analíticas de Big data e aplicativos digitais para informar e educar o público, garantir a rastreabilidade, melhorar a contagem de multidões, otimizar a alocação de leitos de UTI, combater notícias falsas, etc. - mais uma vez, evitando opções de medidas excessivamente intrusivas e que não respeitem a privacidade. Aqui também, a cooperação Bélgica-Brasil mostra-se promissora para sinergias


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