top of page

“A diversidade é importante em qualquer ambiente”

A advogada Mariana Tavares Antunes fala sobre a consolidação do papel das mulheres em posições de liderança


ree

Sócia na Wald, Antunes, Vita, Longo e Blattner Advogados, Mariana Tavares Antunes é bacharel pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1997) e cursou o Advanced Mediation Workshop: Mediating Complex Disputes no Harvard Negotiation Institute (2017). Reconhecida entre os advogados mais admirados pela Análise 500, LACCA Approved (Best Litigators in Latin America), Lawyer Monthly: Women in Law Awards, Who ́s Who, já foi citada também na Latin Lawyer 250. Membro do Instituto dos Advogados de São Paulo, a profissional teve seu primeiro contato com o direito ainda como estagiária em um escritório familiar comandado pelo ilustre professor Walter Ceneviva. “Logo após concluir a graduação, ingressei no mestrado e tive a honra de ter como professor o saudoso Donaldo Armelin, que me convidou para trabalhar no escritório do renomado Arnoldo Wald, a quem tinha recentemente se associado”, lembra. Lisonjeada com o convite e muito feliz pela oportunidade, a advogada ingressou no escritório em 2000, se tornando sócia e atuando ao lado de grandes profissionais. Nesta entrevista, Mariana Tavares Antunes lança um olhar carregado de experiência em direção aos assuntos disruptivos que permeiam a nova economia.


VIDI – Como conseguir um olhar estratégico sobre os diversos temas jurídicos e riscos que compõem o dia a dia de uma empresa nos dias de hoje?


Mariana Tavares Antunes – O olhar estratégico demanda um conhecimento amplo da operação, em seus mais diversos aspectos. Vai muito além do jurídico, envolvendo a capacidade de coordenação, liderança e muita análise crítica. Além disso, exige flexibilidade. A boa estratégia não pode ser estanque, já que os fatos são dinâmicos. Assim, a linha escolhida no início deve ser constantemente revista, considerando os objetivos do cliente. Não há uma formula pronta que se aplique indistintamente. É

preciso desenvolver a capacidade de escuta ativa e de leitura do ambiente, qualidades que considero essenciais no advogado moderno.


VIDI – A senhora acha que a relação entre advogados e clientes mudou nos últimos anos? Por quais motivos?


MTA – Na minha opinião, mudou bastante. O advogado, durante muito tempo foi visto como um mero instrumento de solução de problemas. A atuação jurídica preventiva era rara. Evoluímos bastante e hoje o direito é visto como ferramenta de planejamento estratégico, a fim de evitar litígios. Os clientes atuais enxergam esse papel mais abrangente do advogado. Mas o que mais mudou, na minha opinião, é o vínculo humano. O relacionamento entre advogado e cliente é intenso e, por isso, demanda atenção, disponibilidade e dedicação recíprocos. Infelizmente, em alguns casos esse vínculo humano vem sendo desvalorizado e sobreposto por questões exclusivamente financeiras. Acho que, nesse ponto, precisamos resgatar e fortalecer esses vínculos, pois a advocacia não é uma commodity.


VIDI – Qual é o impacto da chamada disrupção tecnológica no mercado jurídico?


MTA – A tecnologia aplicada ao direito trouxe, sem dúvida, uma alteração significativa na profissão. A velocidade de acesso a informação, bem como a sua organização e sistematização já são um verdadeiro divisor de águas. Os sistemas de gestão absolutamente integrados, os bancos de dados atualizados de forma imediata e o uso cada vez maior de instrumentos de inteligência digital tornam a instrumentalização do direito mais ágil e eficiente. Mas ainda há grandes desafios na sua utilização indiscriminada, sobretudo em áreas que envolvem ciências humanas, como o direito. Particularmente, acredito que o fator humano é e sempre será indispensável e insubstituível.


VIDI – A senhora acredita que as universidades têm conseguido qualificar os jovens advogados para as demandas da economia moderna?


MTA – Penso que a formação precisa se expandir para outras áreas de conhecimento, ampliando os horizontes do profissional do direito. Com a ampliação exponencial da tecnologia e a adoção das ferramentas da inteligência artificial, sinto que as habilidades

interpessoais e emocionais ficam subdesenvolvidas, e o advogado jamais pode prescindir disso. Noto que a nova geração de profissionais está mais ansiosa por um crescimento muito rápido e é pouco tolerante a frustrações. Nessa linha, acho importante investir no desenvolvimento de ferramentas de comunicação e emocionais, inclusive na faculdade.


VIDI – A diversidade é importante no ambiente corporativo? De que forma podemos encarar medidas de igualdade como um mecanismo de compliance?


MTA – A diversidade é importante em qualquer ambiente e, finalmente, passou a ser valorizada também no âmbito corporativo. Antigos preconceitos têm perdido espaço na sociedade moderna, que vem já há algum tempo se conscientizando de que a diversidade traz inúmeros benefícios. A questão é que o reflexo dessa mudança na maneira de pensar no ambiente corporativo não é imediato. No ambiente acadêmico, por exemplo, a mudança já é notória. Estive agora em um seminário em Harvard e me chamou a atenção como a diversidade estava presente, em gêneros e raças. Ainda vivemos preconceito, sem dúvida, mas vejo que a nova geração já pensa de forma distinta.


VIDI – As mulheres ainda são uma minoria no C-Level das empresas? É possível estimular o debate de gênero sem gerar atritos ou ativismo exagerado?


MTA – A sociedade hoje vive uma mudança positiva de conceitos e padrões de comportamento. A consolidação do papel das mulheres em posições de liderança é um dos frutos dessa evolução. Particularmente, acredito que é possível uma mudança natural, sem posições radicais ou ativismo exagerado. Vejo que cada vez mais o talento feminino vem sendo reconhecido em sua integralidade. Isso implica incorporar as profissionais mulheres sem exigir que elas abdiquem de sua vida pessoal, inclusive da maternidade. Durante muito tempo, o profissional e o pessoal eram vistos como excludentes. Exigia-se uma escolha entre um e outro. Com o tempo, essa visão mudou, antigas crenças foram superadas e hoje já se provou que a conciliação e não só possível como enriquecedora. Acredito, inclusive, que a capacidade de gerenciar diversas atividades ao mesmo tempo é uma característica feminina forte, muito bem-vinda no ambiente corporativo. No WALD, temos hoje um equilíbrio de gêneros, construído naturalmente ao longo do tempo. Hoje, 60% do nosso time é composto por mulheres, incluindo as sócias gestoras das unidades de São Paulo e Rio de Janeiro.


VIDI – Quais são os grandes casos do escritório no âmbito do direito econômico e da aplicação do direito como uma ferramenta estratégica?


MTA – No âmbito do direito econômico, trabalhamos em diversas frentes, incluindo os processos administrativos perante o Conselho Administrativo de Direito Econômico – CADE, inquéritos administrativos perante o Ministério Público Federal, ações judiciais visando anular condenações administrativas abusivas ou ilegais e, ainda, ações de indenização decorrentes de supostas infrações à ordem econômica. Várias dessas

frentes ocorrem simultaneamente e, portanto, demandam uma atuação estratégica. Aliás, entendo que o direito, em si, qualquer que seja o caso, é sempre uma ferramenta estratégica, já que é instrumento de solução de conflitos passados, presentes e

futuros (conflitos potenciais). No escritório, tive a oportunidade de trabalhar em casos bastante emblemáticos, dentre os quais destaco, mais recentemente, a mediação que permitiu que duas grandes empresas do setor elétrico chegassem a um acordo acerca de uma demanda judicial de 30 anos, viabilizando a venda do controle da companhia, a maior recuperação judicial da América Latina, onde funcionamos na qualidade de administradores judiciais e a primeira arbitragem público-privada brasileira, que resolveu um conflito bilionário decorrente de um contrato de arrendamento mercantil inadimplido por anos a fio.

Comentários


bottom of page