A energia da cana impulsionando a mobilidade sustentável do futuro

A cana-de-açúcar responde por 18,0% da oferta primaria de energia no Brasil, atrás apenas do petróleo (34,4%), e à frente da energia hidráulica (12,4%) e do gás natural (12,2%). É por larga margem a energia renovável de origem na biomassa mais relevante de nossa matriz energética, e tem uma grande importância, principalmente na geração de combustível líquido, etanol, e bioeletricidade produzidos de forma sustentável.

Em 2020, o etanol de cana substituiu 48% de toda a gasolina consumida no Brasil, através da mistura de 27% de etanol anidro misturado à gasolina, e do uso de etanol hidratado na frota flex, que representa 86% da frota de veículos leves do país. A bioeletricidade gerada com biomassa foi responsável por mais de 52 mil GWh de geração elétrica, ofertados principalmente nos meses de inverno, quando as hidroelétricas operam em regime de baixa pela sazonalidade hidrológica. Assim, a bioeletricidade eleva a capacidade de geração de base do sistema hidráulico, sem investimentos adicionais e sem a necessidade de construção de mais represas, para armazenamento de água, e linhas de transmissão. A geração elétrica, assim como o etanol, é produzida próxima aos centros de consumo evitando investimentos e as perdas com transmissão, que no Brasil são muito significativos.

Mais recentemente, novas rotas de diversificação tem sido desenvolvidas com a produção de etanol de segunda geração, através do aproveitamento de bagaço e palha para a geração de etanol celulósico, e a produção de biogás. O biogás gerado pela biodigestão de resíduos do processo industrial como a vinhaça e a torta de filtro, quando queimado em motores elétricos aumenta significativamente a geração de bioeletricidade, e quando purificado e transformado em biometano, é equivalente ao gás natural fóssil e pode ser utilizado para substituir o óleo diesel usado em caminhões, tratores e colhedoras, ou injetado diretamente nos gasodutos por ser fungível ao gás natural fóssil.

O mundo inteiro busca novas formas de energia que sejam sustentáveis, eficientes do ponto de vista energético e limpas para o meio ambiente. O etanol de primeira e segunda geração, a bioeletricidade, o biogás, o biometano, o bagaço e a palha em pellets para substituir carvão mineral em termoelétricas tradicionais, representam essa forma de energia que o mundo almeja. E faz isso de forma replicável, pois usa uma tecnologia que é conhecida e dominada. É escalável, pois pode começar pequena, e crescer ao longo do tempo. É acessível em preço ao consumidor, pois é adaptada a formas de utilização já consagradas, sem a exigência de construção de uma nova infraestrutura de produção, armazenagem e distribuição. Não usa recursos naturais escassos, como metais raros ou preciosos. Gera emprego e renda descentralizados, e tem um impacto positivo muito grande em termos de redução de emissões locais e globais, e portanto na saúde.

Os setores produtor e processador de cana-de-açúcar se complementam e atuam de forma integrada, gerando energia e alimento para o Brasil e para o mundo. Na safra 2020/21, encerrada no final de março de 2021, além de fornecer o etanol que viabilizou a substituição de 48% de toda a gasolina consumida no país, produziu também açúcar para abastecer todo o mercado doméstico e gerar exportações de mais de 32,2 milhões de toneladas, suprindo um mercado livre global estimado em 54,6 milhões de toneladas, o que faz do Brasil por larga margem o maior produtor (com 41,46 milhões de toneladas) e exportador mundial. As exportações de etanol também estão em crescimento, e atingiram em 2020/21 2,92 bilhões de litros, a partir de uma produção total de 32,5 bilhões de litros.

O etanol está sendo utilizado em veículos equipados com motores de combustão interna de elevada taxa de compressão, portanto mais eficientes, o que é uma meta de montadoras em todo o mundo, e mais recentemente em motorizações elétricas, através dos híbridos flex a etanol. As emissões de gases do efeito estufa dos motores flex a etanol são hoje de 58 gramas de CO2e por km, e a dos híbridos a etanol de 29 g CO2e/ km. A titulo de comparação, um veículo elétrico a bateria na Europa hoje emite 92 g CO2e/km, e os veículos leves a gasolina e a diesel emitem em média 124 g CO2e/km. Em breve, estará disponível também a eletrificação com células a combustível utilizando etanol, que utilizam o hidrogênio contido no etanol como fonte de energia. Esses veículos, considerados como sendo a motorização mais moderna e sustentável do futuro, terão emissões estimadas em 27 g CO2e/km. Todos esses números avaliados pelo conceito poço-a-roda (well-to-wheel), ou segundo a avaliação do ciclo de vida (ACV).

Outros países estão buscando soluções equivalentes. A Índia decidiu acelerar a adoção de etanol em mistura à gasolina, e em 2021 deverá atingir uma mistura média de 8,5%. Em 2022, deverá chegar a 10%, e antecipou o cronograma para chegar a 20%, de 2030 para 2025. Além disso, já autorizou a partir de 2021 a distribuição de etanol puro, E100, abrindo as portas para a introdução de automóveis e motocicletas flex capazes de utilizar etanol puro diretamente.

Em 2021, a Tailândia vai aumentar a mistura de etanol de 10% para 20% em toda a sua gasolina, e outros países seguem o mesmo caminho ao elevarem o uso de etanol de biomassa em suas matrizes de transporte.

Fatih Birol, diretor executivo da Agencia Internacional de Energia, classificou a energia de biomassa como a grande fonte de energia negligenciada no mundo. Mas aparentemente o mundo está descobrindo a sustentabilidade dessa fonte de energia que tem origem no BIO, na vida e na renovabilidade propiciada pelo aproveitamento e transformação eficiente, econômica e segura da energia do sol em energia útil e fácil de armazenar, transportar e distribuir.

O Brasil oferece esta solução ao mundo, colocando a disposição de todos a tecnologia que desenvolveu nos últimos 45 anos. Tecnologia que permitiu ao Brasil substituir, desde 1975, 3,3 bilhões de barris de gasolina, com economia de 607,7 bilhões de dólares em importações evitadas, incluindo o custo da dívida externa evitada.

Em 2021, a safra de cana deve ser momentaneamente menor do que foi em 2020, por conta da da seca de 2020, que se prolonga no primeiro trimestre de 2021. Mas os preços continuam competitivos, e o setor privado se encontra preparado e ansioso para investir mais, e torna-lo mais eficiente e com menores custos, graças ao impulso propiciado pelo RenovaBio, que premia os produtores mais eficientes permitindo-lhes que emitam mais créditos de descarbonização.

Para se ter uma ideia do que isso representa, em 11 anos de operação, os veículos da Tesla geraram uma economia de 3,7 milhões de toneladas de carbono, em CO2 equivalente. Os produtores de etanol certificados pelo RenovaBio no Brasil descarbonizaram no primeiro ano de operação do programa, em 2020, mais de 15 milhões de toneladas de CO2e. No segundo ano, serão mais 25,2 milhões de toneladas, e em 10 anos, até 2030 serão 620 milhões de toneladas, equivalentes a toda a emissão de um país como a França ou a Alemanha durante um ano todo.

Através da cana-de-açúcar e do aproveitamento de resíduos orgânicos, o Brasil demonstra que a bioenergia pode ser um vetor relevante para a mobilidade sustentável do futuro.


* Plinio M. Nastari Presidente da DATAGRO e do IBIO, Instituto Brasileiro de Bioenergia e Bioeconomia, foi Representante da Sociedade Civil no CNPE, Conselho Nacional de Política Energética (Nov/2016 a Ago/2020)

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